Santiago '10 - Caminho do Atlântico

Diz-se que quem não vai a Santiago em vivo, irá depois de falecer. Não sabemos, mas pela via das dúvidas, lá seguimos os trilhos do Caminho do Atlântico, alternativa ao caminho mais conhecido e parte integrante do Caminho Português de Santiago. A promessa de paisagens alucinantes, de bons trilhos e de bom andamento não saiu defraudada e até despertou em nós emoções... Dados os km's desta jornada, a planificação estipulou duas etapas:

1ª Etapa (A Portuguesa) - Delães->Valença

Os deveres profissionais dividiu o grupo em dois para a primeira etapa, se uns fizeram-na no feriado, outros na véspera de fim de semana. O importante é que na noite anterior à segunda etapa, todos jantávamos uma bela francesinha, que é como sabemos, o melhor energético que existe...
Na madrugada em que se iniciou desta etapa a chuva parecida querer marcar presença, mas nada que fizesse parar esta façanha. A escuridão e a solidão da noite contrastava com a nossa iluminada pedalada rumo ao objectivo de cumprir esta etapa. Sem grandes lembranças ou paragens, dada a hora e a falta de luz, o Albergue de Rates foi paragem obrigatória para o primeiro carimbo do dia, o problema é que o dito carimbo estava na posse de alguém que ainda estava a dormir!

"...acordei às 4:00 e estava pronto às 4:20, primeira cena: o meu irmão adormeceu!!!!..." - ZéKTM

A contagem de coelhos selvagens ia animando as hostes e a chegada ao marco que assinala os caminhos de Santiago pela costa, situávamo-nos agora em Esponsende, local ideal para o pequeno-almoço!

"...em Rates o albergue, que para alguns se chama "alforges" estava fechado, portanto carimbo de grilo!..." - ZéKTM

Aqui sim, houve carimbo e já iluminados pelo sol, as fotos foram tendo o fundo de água, a paisagem era diferente do habitual, a água era o elemento constante, quanto mais não fosse pela ameaça de chuva! Os 5 "cromos" do universo paralelo reiteravam expressões de comédia, numa aura de belo efeito, certamente causada pelo iodo que é libertado à beira-mar. As setas nem sempre estavam visíveis, ou então os olhos nem sempre estavam virados para as setas, mas aqui o gps foi sendo o 'backup' de serviço. As gentes e terras que conhecemos no 'caminho' são de uma simpatia desigual.

"...cada um teve o seu momento de glória:
Careca - passou a nosso Personal Treinador;
Guerrero - pela simples expressão facial, o estado de "saúde" não era o melhor, logo fotógrafo de serviço;
Redleh - por excesso de "glubinas" no sangue pedia insistentemente ao grupo para o acompanhar;
ZéKTM - fez a dança do disc-jokey, moderna e outras;
EU - adormeci!!!" - Sognimod

Ainda se encontram pequenos rebuçados, como o singletrack que terminava na ponte sobre o rio Neiva, espectacular, sendo que o seu início está assinalado com um belo marco alusivo aos caminhos! A chegada a Viana do Castelo deu-se com naturalidade, sendo que aqui o caminho cruza o centro da cidade, onde por acaso decorria a feira medieval. Motivo para mais umas fotos e um carimbo e havia que seguir viagem pois ainda era longa. Um telefonema compunha o equilíbrio entre os universos paralelos por momentos, num aproximar de lugares e de companhia. O mar ladeando o caminho, o vento na face e o sol lá no alto eram os condimentos de um agradável passeio, terminando num outro, também agradável, mas por entre a linha de comboio e com o mar ao fundo. Lindas fotos! Daquelas de enviar postal. Ao chegar a Vila Praia de Âncora, uma calçada romana escondia mais um ou outro rebuçado de ocasião. Os trilhos técnicos apareciam sem avisar e já na chegada a Valença, demos com trilhos planos de alto rendimento. Em Valença, uma visita à sua fortaleza e uma vista sobre o rio Minho era o melhor fim de dia que se poderia desejar depois de 136km's...

"...até amanhã..." - Pin7as

2ª Etapa (A Espanhola) - Valença->Santiago

Etapa com todos os elementos reunidos em troca animada de comentários e estórias dos respectivos universos paralelos. O acordar madrugador não fez moça em nenhum de nós, já que quando é para pedalar, estamos sempre prontos, ainda que seja dois dias seguidos!
Percurso já conhecido de aventuras anteriores, o desejo era agora de tentar acabar a proeza em apenas dois dias, sendo que um de nós seguia sem velocidades. A passagem por Porriño, Pontevedra, Padrón e outras cidades espanholas deu-se sem sobressaltos, até porque o ambiente que se vive no camiño é de festa. Estas cidades escondem uma outra cultura e maneira de viver que sendo diferente causa sempre curiosidade por quem lá passa. Algumas destas cidades são ícones nas viagens de automóvel para o país vizinho, pelo que visita-las de bicicleta é motivador. Os trilhos, quando existem, estão bem conservados e nota-se um cuidado diferente na preservação da fauna e flora naturais. Até no cruzar por um grupo de peregrinos a cavalo se nota a diferente maneira de estar destes nossos vizinhos. As pontes e a água era uma presença constante nos trilhos e só uma sandes de presunto nos faria parar. Ponto obrigatório de passagem para peregrinos e para aqueles que apreciam uma bela sandes de presunto, é um estabelecimento acolhedor a poucos km's de Santiago. Até nos ofertaram uns licores de origem desconhecida que elevaram o espírito e tornaram os km's finais mais suportáveis. O frio começou a dar ar da sua graça, os km's começaram a elevar-se e acima de tudo o cansaço de dois dias a pedalar começou a fazer-se notar, foram uns míseros km's finais. O último fôlego para quem o tinha, era para a última subida, não que fosse de inclinação acentuada, mas pela sua extensão, lá se fez. Parcos metros nos separavam da catedral de Santiago de Compostela. Num ritmo de quem esquece o cansaço, chegámos ao km 0 com a sensação de objectivo cumprido. Umas fotos e os devidos abraços e era hora de descansar.

No dia seguinte os planos eram de confraternização. Um autocarro, fretado para o efeito, levava as nossas famílias para uma confraternização e convívio num parque da cidade. A desculpa de pedalar 250km teria de valer de alguma coisa e nada melhor que receber como "prémio" a companhia de quem mais gostamos. Um belo dia num belo parque deram origem a um belo convívio entre famílias e pedalantes. Não faltaram as brincadeiras normais de quem passa muito tempo em cima da bike. Horas e horas de diversão, compensadas agora com a família em mais um lanche-convívio na cidade que nos acolheu entre Delães e Santiago, Valença. Tudo a condizer, até o fim de tarde que não poderia ser melhor. A chegada a casa, com a família e amigos foi o selar de um dos melhores fins de semana que se podem desejar! Até uma próxima, Santiago!




Santiago '10 - Caminho do Atlântico from Sergio Almeida on Vimeo.


Santiago '10 - Caminho do Atlântico from Domingos Gouveia on Vimeo.

Compostela '10 - Caminho do Atlantico from Helder Azevedo on Vimeo.



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